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Não mais, portanto, passagem de um ponto a outro, ou de um agora a um outro, mas autodiferenciação como modo de existência - temporal - do presente; mudança ou metamorfose de um "campo" ou de um "mundo", em permanente transformação (passagem de si a si, como diz o filósofo, "escoamento" de si para si mesmo). É esta, indica-nos ele, a estrutura do tempo: articulação e diferenciação latente do passado e do futuro no campo do presente, pois este guarda os traços de suas configurações passadas e evoca em si mesmo outras possíveis. Por isso não encontramos a temporalidade na sucessão (de diferentes momentos ou instantes) mas na simultaneidade desta presença espessa, movediça, permeada pelas marcas de um aquém e projetada para adiante pelos sinais do ausente inscritos nas suas dobras. Ao referir-se à espessura ou profundidade do presente, Merleau-Ponty nos lembra, pois, que ele não é "um segmento de tempo de contornos definidos", uma duração determinada e contínua - como um indivíduo espaço-temporal -, mas um "campo", aberto e "poroso", indeciso e lacunar, em cujo inacabamento e indeterminação se encontra justamente sua abertura para o outro, para o ausente, ou ainda - para usar sua expressão mais cara - para o "invisível", esta "contrapartida secreta do visível... inscrita [permanentemente] nele, em filigrana". Esta "abertura" (inscrita no presente) é o elemento do tempo, pois é o motor da sua contínua diferenciação.
Compreendemos, então, que a temporalidade não se constitui por extensão ou agregação, acumulação ou envolvimento, mas - por ser o presente inacabado, indeciso e lacunar - se faz por alteração, quebra e transformação, estilhaçamento e reorganização de um mesmo "campo", por desintegração e reconstituição (sempre "aberta") do seu sentido. Se há passagem, ela é, portanto, de uma configuração a outra do sentido.





trecho do texto "o olhar do viajante (do etnólogo)", de sérgio cardoso, no livro "o olhar", p. 356. os grifos (aspas, parênteses, travessões e colchetes - ufa!) são do autor

fotografia de alexandre strapasson, numa bookstore cheia de guloseimas > anteontem.



Local: London, UK