Sístole. Diástole.
Sístole. Diástole.
Sístole.................
Encapsulados, contidos num corpo, habitamos fisicamente tempos e espaços.
No pulsar intermitente existimos e, ao fim, esvaziamo-nos. Passamos, então, a preencher lugares enquanto nossa ausência puder reverberar noutros corpos vivos. A ausência se faz num instante e, em seguida, preenche todos os espaços, tornando-se quase matérica à medida que o tempo passa.
Quase palpável. Quase vida.
Os espaços, os convívios, as coisas, os atos de repente ficam cheios de vazio e transformam-se num ambíguo cárcere: necessário, porém cheio de angústia e perecer. Nesse esvaziamento - intenso, cíclico e sobreposto - ecoa a presença da ausência e, assim, abismos silenciosos, lentos e íntimos configuram-se para que haja uma elaboração do luto.
Estados descontínuos de espera. Estados de repouso em continuidade. Estados de gravidade em repouso. Leveza grave, dura... e duradoura.
Inspire, expire: a cicuta de cada dia. Linhas e manchas negras tomam conta da transparência da vida que se esvai. O corpo vivente estende-se para e perante as coisas do mundo. E ao se tornar ausente deixa um indício de sobrevida em cada coisa que permanece: objetos, registros ou resíduos que nos assombram, surpreendem e comunicam.
“...o cabelo ‘insiste’ em se estender debaixo da terra...” – Anna Behatriz, de forma delicada e forte, corajosamente toca em questões que envolvem nascimento, descontinuidade e morte. A artista, nesta exposição, não apenas apresenta sua produção em videoarte, mas a elabora subterraneamente.
O tempo de espera. O tempo que resta. Lidar com o vazio é enfrentar o paradoxo presença/ausência. Anna Behatriz nos convida a sentarmos demoradamente sobre os restos de uma preciosa existência. Tocar seus vestígios, seu DNA, numa urgência de fazer parte do corpo que se foi.
Inspire profundamente. Expire suavemente. Em loop.
Manoela dos Anjos Afonso
