Os primeiros estudos para os Auto-retrados de viagem nasceram em 2007, talvez como um desdobramento da série Brasília Gravada: eu estava lidando intensamente com poesia e imagem gráfica (carimbos) e a contaminação palavra/imagem ficou evidente. De início isso se deu nos títulos de algumas gravuras analisadas, mas posteriormente a palavra ganhou espaço até vazar para a própria imagem: nos Auto-retratos de viagem a palavra forma não só a imagem, mas também diversos textos abertos.

E por que o 'deslocamento'? Porque as mudanças de cidade, de casa, de lar foram muito significativas para mim. Eu perdi um pouco das minhas referências... eu que achava que elas estavam tão profundamente enraizadas, de repente olhei para trás e não encontrei mais minha cidade natal. Ela se perdeu no espaço/tempo da lembrança. E o que restou, tranformou-se ("O que de fato foi real?", pergunto num outro trabalho artístico de 2009).

Sobre chegar: partir para ficar noutro lugar nunca foi fácil para mim. O que fica para trás tende a me assombrar nostalgicamente durante um período... são saudades demasiadas, banzos de gentes, lugares, momentos, luzes, cheiros. Sendo assim,chegar sempre gerou rejeições. Foi assim com Brasília, foi assim com Goiânia. Mas felizmente chega o momento em que o ficar é assimilado pelo cotidiano e as pequenas novas belezas e delicadezas se revelam. A partir daí espalho novamente minhas raízes afetivas pelos espaços recém-aceitos, transformando-os em lugares... tudo isso para depois sentir mais saudades após outras partidas.

 

Auto-retrato de viagem: chegar. Impressão feita com estêncil e carimbo sobre papel filtro A5. Brasília, 2008. 50 exemplares impressos hoje, 31 carimbadas cada um = 1550 gestos repetitivos.