De Chapadão fomos em direção ao Parque - e não ficamos chapadões. Mas ficamos maravilhados com o cerrado. Saímos de Chapadão do Céu pela manhã, cruzamos a pequena cidade e paramos num acampamento do MST para pedir informações. Disseram que o Parque era pertinho, logo ali. Animados, seguimos em frente achando que as estradas ruins ficaram para trás... Rodamos poucos km e avistamos ao longe os caminhões parados: atoleiro em frente. Eu já estava de saco cheio de segurar no "puta-merda" e quis logo desistir, cortar caminho para Mineiros e voltar para Goiânia. Mas a idéia era frustrante, pois sabíamos que era pouco provável uma volta a esse lugar no interior de Goiás. Chegar na porta do Parque e desistir era de fato uma derrota braba. Paramos o carro e ficamos ali, observando a estrada e os caminhões de longe e teorizando o que seria melhor fazer.
Depois de alguns minutos, um uno (não, se fosse Átila seria com h) passou por nós e foi em frente sem nem pensar duas vezes. Nós ficamos ali, meio incrédulos, achando que o carrinho ficaria atolado ou bateria num dos caminhões parados, já que a lama estava um sabão. O uninho foi que foi, e nós pensamos: - pura sorte.
Depois de mais uns minutos veio um corcel caindo aos pedaços e passou pulando em alta velocidade pelo atoleiro. Aí não deu pra engolir; pensamos: - pô, vamo nessa então né!
Respiramos fundo e fomos em frente! Tiramos uma fina dos caminhões parados mas conseguimos! (Conversando com meu amigo Sylvio há alguns dias em Brasília fiquei sabendo que não se pode tomar por base nem corcel nem fusca, são carros valentes... ainda bem que nosso Palio não deixou por menos - mas ele já dava sinais de que as coisas não iam muito bem; quando a ventoinha ligava o carro tremia inteiro, provavelmente devido ao barro endurecido por todo o motor, ventoinha, buzina e tudo mais).
Bom, depois de passado o susto, seguimos debaixo do sol do meio-dia (sem protetor solar). Mais à frente, fomos recepcionados por uma Ema atleta: correu na frente do carro por alguns bons metros... um Papa-Léguas tupiniquim. Bom, ao menos o Parque Nacional das Emas tem mesmo emas.
O cerrado é realmente lindo. Só se tem a dimensão da sua beleza quando é possível estar realmente dentro dele. Talvez seja a única maneira de captar uma pequena porção da dimensão do sublime existente na natureza.
Quem sobrevoa o cerrado na imagem abaixo é o Carcará - como deve ser linda essa vista aí de cima, hein, Carcará!
Ah! Se Turner tivesse conhecido os céus do cerrado! Sua paleta teria outras cores e os céus teriam nuvens mais fofas.
Imagem: William Turner
Gil - de amarelo na foto - foi nosso guia. Ele controla incêndios no Parque. O controle dos incêncios no cerrado é algo mesmo fascinante: nem sempre o fogo deve ser apagado, às vezes ele deve ser apenas conduzido. A decisão do que fazer com o incêndio leva em conta a necessidade natural desse tipo de vegetação, que precisa do calor do fogo para fazer germinar suas sementes. É um belo e complexo trabalho.
Aprendemos muitas coisas sobre o cerrado: campos limpos, campos sujos, campos cerrados e veredas; aprender "in loco" é bem melhor. Vimos algumas espécies de vegetação e de animais (estes empalhados, na sua maioria). Mas o mais fantástico - e é uma pena que não pudemos ficar para ver a coisa - foi conhecer o fenômeno da bioluminescência dos cupinzeiros: de outubro a dezembro larvas luminosas (creio que sejam de vaga-lumes) aderem aos cupinzeiros. Agora, imaginem que loucura: tem partes do Parque com cupinzeiros até o horizonte... Se uma pessoa desavisada dá de cara com esse fenômeno, à noite, vai subir num disco-voador nem que ele não exista hehehe.
Mais informações sobre o Parque: http://www.parquenacionaldasemas.com.br/
Fomos embora debaixo de uma chuva generosa, mas felizmente a estrada do Parque à Mineiros e de Mineiros à Goiânia está asfaltada. A volta, como sempre, parece mais cansativa do que a ida; estávamos sujos, com fome e precisando de um banho morninho. Mas quando o tempo toma distância, a saudade dessas aventuras cresce e a necessidade de uma energização vinda da natureza aumenta. Agora, só pensamos para onde será a próxima viagem.
E fica aqui mais um ensinamento de Nicolas:
"Nem tudo
que é torto
é errado
veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado"
Nicolas Behr, do livro Poesília - p. 40