"Interessante notar que a distância entre os serventes e os profissionais é definida pela presença da arte. Especializados em determinadas operações realizadas globalmente pelo artesão, os profissionais conservam um certo 'orgulho' pela habilidade que dominam.
Carlos, carpinteiro, descreve a 'Arte':
Quer dizê, arte é realmente a profissão da pessoa, que dizê que a profissão é uma arte, entendeu? Seja o carpinteiro, o pedreiro, o marceneiro, o eletricista, o bombeiro, quer dizê, tudo é arte, entendeu?
E o carpinteiro João mostra a diferença:
Arte deve ser o seguinte, em qualquer profissão, né, ou seja, a única pessoa que num tem arte é servente, porque servente num tem arte não. Mas passando pra profissional, cada um tem sua arte, ou seja mecânico, ou lanterneiro, ou jardineiro, ou pintor, ou carpinteiro, ou estucador, ou armador... todo profissional. Isso é arte.
Muitas vezes os trabalhadores possuem a 'arte', mas não têm como prová-lo. Formados pela prática da profissão e submetidos a regime de trabalho que nem sempre cumpre as determinações legais, ficam sujeitos a 'fazer o teste' na obra para provar a qualidade do trabalho.
O pedreiro Raimundo diz:
Muitas firma pede. Chega e pede um teste, mas quando você vem com a carteira branca. Se você diz que é pedreiro ou é aquilo ali, mas a carteira vem em branco, aí você tem que fazer o teste. Se passar, aí ficha pra firma. É o que chama 'esquentou a carteira' de fulano, a primeira vez se chama 'esquenteou a carteira'.
- Esquentou a carteira, por quê?
- Porque as firma classificaram ele com a arte que ele já tinha aprendido e nunca tinha na carteira, né, aí chama fulano foi 'esquentado a carteira'. Quando tá com duas, três, quatro firma que ele é empregado fichado, aí a carteira é fria, quer dizer que o rapaz entendeu a arte e já vai conseguindo cavalgar."
(SOUSA, Nair Heloísa Bicalho de. Construtores de Brasília: estudo de operários e sua participação política. Petrópolis: Vozes, 1983. ps. 95, 96)
Imagem: um recorte do recorte: recorte da vista da janela - à esquerda de onde me encontro agora - bsb - 30/04/07