Olhando Miró


Almir D'Ávila entrou criança, foi declarado demente e nunca mais saiu. Nunca ninguém escreveu uma carta para ele, nunca ninguém o visitou. Embora pudesse ir embora, não tem para onde; embora quisesse falar, não tem com quem. Há mais de quarenta anos, passa seus dias no manicômio de São Paulo, caminhando em círculos, com um rádio grudado na orelha, e em seu caminho tropeça sempre com os mesmos homens que caminham em círculos com um rádio grudado na orelha. Um dos médicos organizou a visita a uma exposição de pinturas de Joan Miró. Almir vestiu seu único terno, velhinho mas bem passado debaixo do colchão, enfiou até os olhos seu boné de almirante, e marchou com os outros rumo ao museu. E viu. Viu as cores que explodiam, o tomate que tinha bigode e o garfo que bailava, o pássaro que era mulher nua, os céus com olhos e as caras com estrelas. Andou, de quadro em quadro, com o cenho franzido. Era evidente que Miró o havia enganado, mas o médico quis saber a sua opinião:

- Demasiada - disse Almir

- Demasiada o quê?

- Demasiada loucura.


Eduardo Galeano - Bocas do Tempo

Imagem: Garatuja de Paint, Manoela Afonso, 2005



Local: Brasília - DF, Brasil